domingo, 30 de novembro de 2008

Não é feito pra dar certo

Ele me pegou em casa a contragosto. Esbravejando. Xingando. Eu ri. Achei graça. Mudei de estação na rádio. O teu amor é uma mentira, que a minha vaidade quer. Tava tocando isso. E eu nem aí.
No banco de trás um casaquinho verde musgo tamanho PP. De alguma garota da noite anterior. Ou da semana passada. Ele é cheio de garotas e pela primeira vez na vida sorri ao pensar isso. Tá certo ele. Bonitão, rico, engraçado e safado. Que mulher não se apaixona por ele?
Eu. Eu não me apaixono mais por ele. O que significa que agora podemos nos relacionar. O que significa que agora, posso ficar tranquilamente ao lado dele sem odiar meu cabelo e minha bunda e minha loucura. E posso vê-lo literalmente duas vezes ao ano, sem achar que duas vezes na semana são duas vezes ao ano. E posso vê-lo ir embora, sem me desmanchar ou querer abraçar meu porteiro e chorar. Consigo até dar tchauzinho do portão. Tchau, vou comer um pedaço de torta de nozes e assoviar. Tchau, querido mais um ser humano do planeta.
Passamos no CEASA pra comprar caixotes podres de feira. Última moda em decoração de bibliotecas. Ele briga comigo, que pobre que você é, Tati. Mau gosto da porra. E diz que eu não sei tratar gente simples, que chego falando difícil de propósito. Eu não fiz nada disso, mas tô nem aí de me explicar ou convencê-lo do contrário. Morro de rir. Se eu o amasse, sentaria no chão e começaria a chorar. Por favor! Goste de mim! Por favor! Como assim eu não sei tratar gente simples? Eu ia ficar com isso na cabeça um mês. Ia aumentar a terapia em três vezes por semana. Ia fazer um curso na Casa do Saber de como falar com feirantes em final de expediente. Ia querer morrer.
Mas apenas ri e continuei na minha missão de tomar garapa. Se eu o amasse, ia morrer de medo de passar mal de dor de barriga por causa da garapa. Ou dele me achar brega por causa da garapa. Mas como não tô nem aí, nem lembro que tenho barriga. E o feirante tentando entender o que era fashion. E eu arrotando internamente, sabor garapa.
Depois fomos à Bienal. Eu fiquei com nojo de colocar as luvinhas para ver as fotos. Porque o mundo todo usou aquelas luvinhas não descartáveis. E ele me olhando com preguiça. Ai, Tati, como você é fresca. E eu assumi minha frescura e o larguei falando sozinho. Se eu estivesse apaixonada, ia bolar milhares de motivos mirabolantes para lhe explicar meus motivos em não querer usar a luvinha. Ia entrar na lenga lenga insuportável de pedir desculpas por ser como sou, como se isso tivesse explicação ou desculpas ou salvação. Teria morrido, ou melhor, o matado, porque não suporto olhares de preguiça e reprovação. Teria perguntando, ainda que inconscientemente, o que fazer, naquele fim de tarde, para ser absolutamente perfeita. Me odiando e odiando ele por me sentir assim, uma imbecil. Mas não, apenas fui ver as fotos. Ele me achar fresca e uma barrinha de cereal sabor artificial de banana tem o mesmo poder sobre mim. Nenhum.
No final do dia fomos até a casa de uns amigos dele. E eu lá, pela primeira vez na vida, gostando dos amigos dele, tratando todo mundo bem. Rindo pra caramba daquele monte de besteira. Ficando amiga das garotas de 20 anos com sombra roxa nos olhos. A galera que vai em peso para “a praia do momento para quem quer pertencer a algo que todos querem pertencer mas não sabem bem o que é”. E ele me olhando de longe. Ah, se ela tivesse agido assim. Tão normal, tão simpática, tão leve, tão boa companhia. Ao invés daqueles surtos de ciúme, daquelas cobranças por mais intensidade, daquela necessidade em acordar de madrugada com medo da vida, daquela arrogância pra cima de mim e dos meus amigos que não sabiam conversar de livros, filmes, músicas e dor na alma. Se ela tivesse confiado assim no taco dela. E sorrido mais. Se ela tivesse me amado sem amar. Ou como amam as pessoas que conseguem se relacionar. E eu lá, sendo adorada por ele, justamente porque não o adoro mais. Ô vidinha filha da puta.
No final do dia, a frase que eu temia. “Quer fazer alguma coisa amanhã?”. Eu sabia. Toda mulher feliz e equilibrada deixa saudades. Mas eu não queria. Eu só queria amar alguém, com toda a tristeza e desequilíbrio que vem junto com isso, e continuar deixando saudades. Quando dizem que namoro ou casamento ou qualquer relacionamento mais sério não pode dar certo, eu discordo. O que definitivamente não dá certo, ao menos para mim, é se apaixonar.
Agora, que graça tem fazer qualquer coisa da vida sem estar apaixonada? Ô vidinha filha da puta.


Texto de Tati Bernardi

sábado, 22 de novembro de 2008

Vinho tinto e rapidinhas.

Alice pela primeira vez não conseguiu chorar. Sentou no piso do banheiro, atrás da porta do quarto, no parapeito da sacada, no balcão da cozinha, e nada. Após quinze tristes minutos de raiva, indignação e desprezo por si mesma, Alice percebeu que aquela talvez fosse a melhor coisa que já tivesse acontecido com ela até aquele momento.

Homens, ela já sabia há tempos, eram todos iguais, o que mudava era o valor da conta bancária. Mas alguns ainda conseguiam confundir e irritar sua cabeça.

Sabendo que isso ia acontecer, saiu de casa preparada. Tinha as mentiras e respostas prontas na ponta da língua.

Chega de se enganar achando que o cara errado, possa de uma hora para outra, passar a ser o cara certo. As coisas não acontecem assim tão rapidamente como deveriam.

Ansiou a noite toda pelo momento em que fosse preciso usar as frases já ensaiadas, mas ele não parecia chegar nunca. E isso estava atrapalhando seus planos. Não queria sair de vitima mais uma vez. Queria poder dizer que teve tudo sobre controle e que a culpa era exclusivamente dele.

As horas passavam e nada acontecia, as oportunidades deixavam de ser aproveitadas por casos mal resolvidos, e isso mais do que tudo irritava Alice.

Então ela resolveu agir, botar as garras pra fora e assumir quem realmente controlava a situação. E como num piscar de olhos tudo desabou. Ela mais uma vez havia chego tarde, e ele já estava com dedos e braços entrelaçados em outra.

Nos segundos que levaram para a idéia se instalar em sua cabeça, Alice tomou uma decisão. Ele poderia ter resolvido tudo nos seus sujos e infiéis modos, mas ela não deixaria ele ficar com o gostinho de vitória na boca.

Levou apenas mais vinte minutos para chegar em casa e descobrir que aquilo não ia lhe fazer chorar. A cara de seu ex-novo amigo parecia lhe divertir mais do que entristecer. E foi com a constatação de como apenas algumas palavras poderiam facilmente destruir um homem que ela resolveu abrir uma garrafa de vinho.

Beber sozinha só era agradável nessas horas, uma taça de tinto e um maço de cigarros era a melhor companhia que ela poderia desejar no momento.

Todos sempre diziam a mesma coisa: Alice, você é única. Nunca conheci alguém assim como você. Seria bom se mais mulheres agissem assim e blábláblá. Mas se ela era tão boa assim, porque ninguém até agora tivera coragem suficiente de lhe assumir?

Ela só era boa escondida? Ou só umas rapidinhas bastavam?

Por muito tempo ela também achou que isso era o suficiente, na verdade ela nem gostaria de ter nada sério nessa altura do campeonato. Mas aquelas afirmações não conseguiam sair de sua cabeça, estavam impregnadas, assim como a imagem de uma outra loira sentada na cadeira que uma vez fora dela.

A garrafa de vinho secou, os cigarros acabaram e as lágrimas ainda não tinham conseguido sair.
Olhando para o relógio e pensando no quão cedo teria que se levantar na manhã seguinte, Alice resolveu ir dormir.

Enquanto rolava de um lado para o outro antes de adormecer, a pergunta que não queria calar a atormentava cada vez mais: Porque se dar ao gasto de todo um jogo de sedução se no final ele só queria me comer?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma nova dose e um novo começo.

Engraçado como as coisas mudam rapidamente, o que num dia nós faz feliz, no outro já perdeu a graça. Alice já havia há muito tempo aprendido a não acreditar em promessas e não idealizar fatos não ocorridos. Mas de um tempo pra cá sua cápsula protetora parecia ter perdido a força. Ela estava mais vulnerável, e isso decididamente não era algo bom.

Seu novo amigo já não fazia mais parte de sua vida. Era com ela que ele não queria passear de mãos dadas, mas com as outras não havia objeção. Por ela tudo bem, quem havia perdido era ele.

Um ciclo havia se encerrado, com um ano a mais na contagem de sua identidade ela resolveu que era hora de mudar. Parar de apenas falar e começar a por em prática. Alice não queria ser mais uma que apenas falava ser independente e cool. Ela queria sentir, respirar e emanar isso. Ela queria mais.

E ela saiu para comemorar, novas etapas merecem novos começos. Mudou o cabelo, comprou novas roupas, remodificou o que não havia como modificar. E bebeu. Beber faz as coisas parecerem mais simples. Os sonhos se tornam realizáveis, as pessoas se tornam leais, os caminhos são mais curtos, a vida é melhor.

A ressaca do dia anterior foi a melhor de sua vida. Acordar com a maquiagem borrada e com os lençóis manchados não lhe preocupava. Ela havia sido feliz. Nem que fosse por uma só noite e enganada pela embriaguez.

O dia estava quase terminando quando Alice resolveu sair da cama, pensava em talvez repetir a noite anterior. Tomou um banho com o sabonete azul e chorou pelas pessoas que não são felizes. Agradeceu por poder mudar e pelas cicatrizes que guardava do passado.

Estava quase saindo de casa quando o telefone tocou, era um desconhecido que dizia estar apaixonado pela menina da noite anterior. Ela riu e disse não acreditar que ele lembrasse do seu telefone. Ele disse não ter como esquecer, estava hipnotizado e precisava de uma nova dose libertadora de Alice.

Combinaram de se encontrar no mesmo local da noite passada. Ela temerosa de que ele descobrisse que tudo não se passara de um tanto a mais de álcool do que o normal. Ele ansioso por enfim encontrar alguém sem medo de ser feliz.