sábado, 13 de dezembro de 2008

Quando realmente algo vale a pena.

Hoje o seu maior amor de todos os tempos foi embora. Pegou um vôo e não voltará mais. Não disse adeus, não se despediu e não disse uma palavra sequer sobre voltar.

Seu coração está em pedaços, mas ela continua fingindo estar firme e forte, como se quisesse mostrar aos outros que é superior a tudo isso. Mas ela não é.

Ela queria um último abraço, um último suspiro, um último beijo. Queria escutar novamente ele dizer que ela é única, e que ninguém nunca conseguirá fazer ele se sentir assim novamente.

Ele foi uma paixão repentina, daquelas que surgem do nada e desaparecem mais rápido ainda. Mas que mesmo assim deixam grandes marcas para a eternidade.

Foi um tempo maluco, aventureiro, feliz e descompromissado. Em questão de dois meses parecia que já se conheciam desde sempre. E então sem mais nem menos, acabou.

E não porque ambos concordaram, a realidade falou mais alto e eles acabaram separados a contra gosto.

Moravam na mesma cidade, tinham os mesmos amigos, iam aos mesmos lugares, mas por quase um ano não trocaram palavras, muito menos olhares. Quando se esbarravam sem querer em alguma esquina era desconfortável, apenas sorriam constrangidos e seguiam suas vidas como se aquilo nunca tivesse ocorrido.

Mas ocorreu. Há alguns dias atrás ele voltou a ligar pra ela. Disse que já fazia mais de um ano e que sentia saudades de sua risada. Combinaram de se encontrar para conversas sobre coisas banais, amigos, novidades, mudanças.

Foi um dia alegre, ela sorria mesmo não tendo do que sorrir. E ele a olhava da mesma maneira que no ano anterior.

Na despedida a saudade gritou, e eles acabaram se beijando. Foi apenas um encostar de lábios, mas a paixão que emanava deles fez tudo ficar mais emocionante.

Naquela mesma noite ele lhe ligou. Disse ter adorado aquela tarde e que precisava vê-la novamente.

Mas ela diferente dele tinha responsabilidades, coisas a fazer que não poderiam ser deixadas para trás. E com isso quase uma semana se passou até eles se falarem novamente.

Se encontraram por acaso em uma festa e passaram a noite inteira sentados um ao lado do outro, apenas experimentando novamente a felicidade de estarem juntos.

Mas nada demais aconteceu. A festa acabou e cada um foi para uma casa diferente, sentindo no peito que aquela não era a realidade esperada.

Outra festa ocorreu no dia seguinte, mas os fatos não mudaram. Apenas o silencio entre eles estava maior.

O fim de semana chegou e eles novamente saíram juntos. Se a situação por si só já não fosse estranha o suficiente, as pequenas fãs que ele colecionava, os separaram mais uma vez.

E ela voltou novamente para casa sem entender o porque dele lhe ligar todo dia dizendo que ainda lhe amava, e agir completamente diferente na frente dos outros.

Alguns dias depois ele lhe contou que estava indo embora da cidade. Que as malas estavam prontas e que em poucos dias ele partiria.

Aquilo foi demais para ela. Porque depois de tanto tempo ele voltaria para sua vida se já sabia que precisava partir? Ele lhe disse que em todos esses recentes momentos que passaram juntos ele gostaria de realmente estar com ela em seus braços, mas que aquilo apenas dificultaria a partida.

Ela disse que iria sentir saudades. Ele disse que morreria de saudades.

E hoje ele partiu.

Ficaram dias sem tocar no assunto e tantos outros sem se falar. Ontem a noite foi a ultima vez em que se viram. Era uma festa de amigos em comum. Ele fez uma piadinha sobre a roupa dela e voltou para junto de seus amigos. Ela disse que já havia decorado aquela piada e que ele precisava de um repertório novo.

Ela ficou por um bom tempo olhando ele de longe. Não disse mais nada e nem tentou se aproximar. Foi embora sem dizer tchau. Como se não quisesse ser vista. Não gostava de despedidas e o escuro da rua lhe dava a oportunidade de sair despercebida.

Parou por alguns segundos olhando o lugar em que um dia eles haviam partilhado juntos. A calçada sobre a qual eles deitaram e observaram as estrelas. O portão onde muitos beijos foram roubados e dados. A rua sem fim em que eles haviam brincado de se separar um dia. Todas aquelas lembranças a fizeram sorrir. E ela voltou para casa com a sensação de uma história bem vivida.

Adormeceu lendo uma velha carta e lembrando dos bons momentos.

Ela não lhe procurou, nem ele lhe ligou. Não faziam questão de se despedir e dizer o que gostariam.

As horas se passaram, e nesse exato momento ele se encontra distante o bastante para já lhe fazer falta.



domingo, 30 de novembro de 2008

Não é feito pra dar certo

Ele me pegou em casa a contragosto. Esbravejando. Xingando. Eu ri. Achei graça. Mudei de estação na rádio. O teu amor é uma mentira, que a minha vaidade quer. Tava tocando isso. E eu nem aí.
No banco de trás um casaquinho verde musgo tamanho PP. De alguma garota da noite anterior. Ou da semana passada. Ele é cheio de garotas e pela primeira vez na vida sorri ao pensar isso. Tá certo ele. Bonitão, rico, engraçado e safado. Que mulher não se apaixona por ele?
Eu. Eu não me apaixono mais por ele. O que significa que agora podemos nos relacionar. O que significa que agora, posso ficar tranquilamente ao lado dele sem odiar meu cabelo e minha bunda e minha loucura. E posso vê-lo literalmente duas vezes ao ano, sem achar que duas vezes na semana são duas vezes ao ano. E posso vê-lo ir embora, sem me desmanchar ou querer abraçar meu porteiro e chorar. Consigo até dar tchauzinho do portão. Tchau, vou comer um pedaço de torta de nozes e assoviar. Tchau, querido mais um ser humano do planeta.
Passamos no CEASA pra comprar caixotes podres de feira. Última moda em decoração de bibliotecas. Ele briga comigo, que pobre que você é, Tati. Mau gosto da porra. E diz que eu não sei tratar gente simples, que chego falando difícil de propósito. Eu não fiz nada disso, mas tô nem aí de me explicar ou convencê-lo do contrário. Morro de rir. Se eu o amasse, sentaria no chão e começaria a chorar. Por favor! Goste de mim! Por favor! Como assim eu não sei tratar gente simples? Eu ia ficar com isso na cabeça um mês. Ia aumentar a terapia em três vezes por semana. Ia fazer um curso na Casa do Saber de como falar com feirantes em final de expediente. Ia querer morrer.
Mas apenas ri e continuei na minha missão de tomar garapa. Se eu o amasse, ia morrer de medo de passar mal de dor de barriga por causa da garapa. Ou dele me achar brega por causa da garapa. Mas como não tô nem aí, nem lembro que tenho barriga. E o feirante tentando entender o que era fashion. E eu arrotando internamente, sabor garapa.
Depois fomos à Bienal. Eu fiquei com nojo de colocar as luvinhas para ver as fotos. Porque o mundo todo usou aquelas luvinhas não descartáveis. E ele me olhando com preguiça. Ai, Tati, como você é fresca. E eu assumi minha frescura e o larguei falando sozinho. Se eu estivesse apaixonada, ia bolar milhares de motivos mirabolantes para lhe explicar meus motivos em não querer usar a luvinha. Ia entrar na lenga lenga insuportável de pedir desculpas por ser como sou, como se isso tivesse explicação ou desculpas ou salvação. Teria morrido, ou melhor, o matado, porque não suporto olhares de preguiça e reprovação. Teria perguntando, ainda que inconscientemente, o que fazer, naquele fim de tarde, para ser absolutamente perfeita. Me odiando e odiando ele por me sentir assim, uma imbecil. Mas não, apenas fui ver as fotos. Ele me achar fresca e uma barrinha de cereal sabor artificial de banana tem o mesmo poder sobre mim. Nenhum.
No final do dia fomos até a casa de uns amigos dele. E eu lá, pela primeira vez na vida, gostando dos amigos dele, tratando todo mundo bem. Rindo pra caramba daquele monte de besteira. Ficando amiga das garotas de 20 anos com sombra roxa nos olhos. A galera que vai em peso para “a praia do momento para quem quer pertencer a algo que todos querem pertencer mas não sabem bem o que é”. E ele me olhando de longe. Ah, se ela tivesse agido assim. Tão normal, tão simpática, tão leve, tão boa companhia. Ao invés daqueles surtos de ciúme, daquelas cobranças por mais intensidade, daquela necessidade em acordar de madrugada com medo da vida, daquela arrogância pra cima de mim e dos meus amigos que não sabiam conversar de livros, filmes, músicas e dor na alma. Se ela tivesse confiado assim no taco dela. E sorrido mais. Se ela tivesse me amado sem amar. Ou como amam as pessoas que conseguem se relacionar. E eu lá, sendo adorada por ele, justamente porque não o adoro mais. Ô vidinha filha da puta.
No final do dia, a frase que eu temia. “Quer fazer alguma coisa amanhã?”. Eu sabia. Toda mulher feliz e equilibrada deixa saudades. Mas eu não queria. Eu só queria amar alguém, com toda a tristeza e desequilíbrio que vem junto com isso, e continuar deixando saudades. Quando dizem que namoro ou casamento ou qualquer relacionamento mais sério não pode dar certo, eu discordo. O que definitivamente não dá certo, ao menos para mim, é se apaixonar.
Agora, que graça tem fazer qualquer coisa da vida sem estar apaixonada? Ô vidinha filha da puta.


Texto de Tati Bernardi

sábado, 22 de novembro de 2008

Vinho tinto e rapidinhas.

Alice pela primeira vez não conseguiu chorar. Sentou no piso do banheiro, atrás da porta do quarto, no parapeito da sacada, no balcão da cozinha, e nada. Após quinze tristes minutos de raiva, indignação e desprezo por si mesma, Alice percebeu que aquela talvez fosse a melhor coisa que já tivesse acontecido com ela até aquele momento.

Homens, ela já sabia há tempos, eram todos iguais, o que mudava era o valor da conta bancária. Mas alguns ainda conseguiam confundir e irritar sua cabeça.

Sabendo que isso ia acontecer, saiu de casa preparada. Tinha as mentiras e respostas prontas na ponta da língua.

Chega de se enganar achando que o cara errado, possa de uma hora para outra, passar a ser o cara certo. As coisas não acontecem assim tão rapidamente como deveriam.

Ansiou a noite toda pelo momento em que fosse preciso usar as frases já ensaiadas, mas ele não parecia chegar nunca. E isso estava atrapalhando seus planos. Não queria sair de vitima mais uma vez. Queria poder dizer que teve tudo sobre controle e que a culpa era exclusivamente dele.

As horas passavam e nada acontecia, as oportunidades deixavam de ser aproveitadas por casos mal resolvidos, e isso mais do que tudo irritava Alice.

Então ela resolveu agir, botar as garras pra fora e assumir quem realmente controlava a situação. E como num piscar de olhos tudo desabou. Ela mais uma vez havia chego tarde, e ele já estava com dedos e braços entrelaçados em outra.

Nos segundos que levaram para a idéia se instalar em sua cabeça, Alice tomou uma decisão. Ele poderia ter resolvido tudo nos seus sujos e infiéis modos, mas ela não deixaria ele ficar com o gostinho de vitória na boca.

Levou apenas mais vinte minutos para chegar em casa e descobrir que aquilo não ia lhe fazer chorar. A cara de seu ex-novo amigo parecia lhe divertir mais do que entristecer. E foi com a constatação de como apenas algumas palavras poderiam facilmente destruir um homem que ela resolveu abrir uma garrafa de vinho.

Beber sozinha só era agradável nessas horas, uma taça de tinto e um maço de cigarros era a melhor companhia que ela poderia desejar no momento.

Todos sempre diziam a mesma coisa: Alice, você é única. Nunca conheci alguém assim como você. Seria bom se mais mulheres agissem assim e blábláblá. Mas se ela era tão boa assim, porque ninguém até agora tivera coragem suficiente de lhe assumir?

Ela só era boa escondida? Ou só umas rapidinhas bastavam?

Por muito tempo ela também achou que isso era o suficiente, na verdade ela nem gostaria de ter nada sério nessa altura do campeonato. Mas aquelas afirmações não conseguiam sair de sua cabeça, estavam impregnadas, assim como a imagem de uma outra loira sentada na cadeira que uma vez fora dela.

A garrafa de vinho secou, os cigarros acabaram e as lágrimas ainda não tinham conseguido sair.
Olhando para o relógio e pensando no quão cedo teria que se levantar na manhã seguinte, Alice resolveu ir dormir.

Enquanto rolava de um lado para o outro antes de adormecer, a pergunta que não queria calar a atormentava cada vez mais: Porque se dar ao gasto de todo um jogo de sedução se no final ele só queria me comer?

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma nova dose e um novo começo.

Engraçado como as coisas mudam rapidamente, o que num dia nós faz feliz, no outro já perdeu a graça. Alice já havia há muito tempo aprendido a não acreditar em promessas e não idealizar fatos não ocorridos. Mas de um tempo pra cá sua cápsula protetora parecia ter perdido a força. Ela estava mais vulnerável, e isso decididamente não era algo bom.

Seu novo amigo já não fazia mais parte de sua vida. Era com ela que ele não queria passear de mãos dadas, mas com as outras não havia objeção. Por ela tudo bem, quem havia perdido era ele.

Um ciclo havia se encerrado, com um ano a mais na contagem de sua identidade ela resolveu que era hora de mudar. Parar de apenas falar e começar a por em prática. Alice não queria ser mais uma que apenas falava ser independente e cool. Ela queria sentir, respirar e emanar isso. Ela queria mais.

E ela saiu para comemorar, novas etapas merecem novos começos. Mudou o cabelo, comprou novas roupas, remodificou o que não havia como modificar. E bebeu. Beber faz as coisas parecerem mais simples. Os sonhos se tornam realizáveis, as pessoas se tornam leais, os caminhos são mais curtos, a vida é melhor.

A ressaca do dia anterior foi a melhor de sua vida. Acordar com a maquiagem borrada e com os lençóis manchados não lhe preocupava. Ela havia sido feliz. Nem que fosse por uma só noite e enganada pela embriaguez.

O dia estava quase terminando quando Alice resolveu sair da cama, pensava em talvez repetir a noite anterior. Tomou um banho com o sabonete azul e chorou pelas pessoas que não são felizes. Agradeceu por poder mudar e pelas cicatrizes que guardava do passado.

Estava quase saindo de casa quando o telefone tocou, era um desconhecido que dizia estar apaixonado pela menina da noite anterior. Ela riu e disse não acreditar que ele lembrasse do seu telefone. Ele disse não ter como esquecer, estava hipnotizado e precisava de uma nova dose libertadora de Alice.

Combinaram de se encontrar no mesmo local da noite passada. Ela temerosa de que ele descobrisse que tudo não se passara de um tanto a mais de álcool do que o normal. Ele ansioso por enfim encontrar alguém sem medo de ser feliz.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Fria e escondida

Alice não era uma garota normal, não sonhava com casinha de cerquinhas brancas, casamento e coisas parecidas. Pra ela a verdadeira felicidade seria alcançada com liberdade financeira e sucesso profissional. Seus sonhos eram mais ambiciosos do que encostar a barriga no fogão e fazer uma família feliz. Ela sonhava com o mundo. Em vê-lo, conhecê-lo e desvendá-lo.

E talvez por não saber desses detalhes em sua vida é que muitos homens passavam despercebidos e tantos outros abismados por ela ser uma mulher sem expectativas sentimentais.

Não que ela não gostasse de um bom romance, longe disso. Mas ela apenas os via de uma maneira diferente. Gostar de um cara não era tão importante e nem tão simples. Para ela havia muito mais em jogo do que confiança e amor.

Alice precisava de alguém que a entendesse e que desfrutasse dos mesmos objetivos de vida que ela. Mas os homens de hoje em dia preferem as bobinhas e bonitinhas que acreditam num mísero ‘eu te amo’. E ela não era assim.

Ela não acreditava em contos de fadas, príncipes encantados e bruxas más (apesar de já ter conhecido várias em sua vida). Não conseguia tecer sentimentos, remoer mágoas ou morrer de ciúmes.

Alice era realmente uma garota diferente, e talvez por essa diferença muitos homens deixassem de entrar na sua vida e fazer parte de sua história. Muitos sabiam de seus defeitos e de sua mania de escrever sobre todos os seus casos.

E isso apenas os afastava mais.

Mas ela não reclamava, um pouco de sossego nunca é demais. Sua vida era razoavelmente boa. Tinha uma família ótima, amigos melhores ainda. Morava num apê pequeno, mas que era seu maior tesouro. Não tinha do que reclamar, a vida até então tinha sido muito gentil com ela.

Mas pela primeira vez ela sentia que poderia enfim trazer algo ou alguém novo para esse seu universo. Até então tudo havia ocorrido perfeitamente bem, tirando é claro a crise de identidade que lhe tinha tirado o sono alguns dias atrás.

Ele era diferente de todos os outros. Pela primeira vez ela conhecera alguém que não queria andar de mãos dadas e gritar juras de amor aos quatro cantos do mundo.

Ele queria ela escondida. Em finais de festas, em becos escuros, em horários malucos, em carros alheios, em madrugadas sem fim. Queria por um segundo e não pelo resto da vida. Exatamente como ela também sempre quis.

domingo, 12 de outubro de 2008

Um novo dia e uma nova vida.

Alice acordou inchada, chorar havia criado imensas olheiras no seu rosto, mas isso não a preocupava. Chorar também havia a aliviado.

Dizem que pensamos melhor quando dormimos, e isso parecia se encaixar perfeitamente com a sua situação. Ela acordou disposta a mudar, não iria mais dar atenção ao que qualquer um falava da sua vida. Ela era a única que deveria se importar com os seus atos, a opinião dos outros não importava.

Chega de chorar por casos perdidos. Chega de lamentar fatos já ocorridos. A vida começava novamente nessa manhã e Alice ia fazer de tudo para que agora ela fosse exatamente como sempre deveria ter sido.

Ao se olhar no espelho se achou mais linda do que nunca, confiança costuma fazer isso com as pessoas. E ao se achar bonita os outros também passaram a achar. Hoje uma nova vida começava e Alice emanava isso pelo ar. Uma sensação de liberdade e felicidade se apoderou dela que tudo o que ela conseguiu fazer durante o dia foi rir e admirar como as pessoas são mais felizes quando se amam.

Pouco importava de quem eram os rostos nas vidraças embaçadas, os ouvidos tentando captar seus mais silenciosos gemidos. De agora em diante o que importava era o desejo do momento. Que os atos sejam avaliados depois. Ela iria se arrepender do que fez e não do que deixou de fazer.

Enquanto tomava um suco gelado e terminava seu trabalho, seu celular tocou. Era ele. Queria saber o que tinha acontecido na noite passada. Ela disse pra ele não se preocupar, que já estava tudo bem.

Ele riu e disse que agora estava mais tranqüilo. Ele se preocupava ela. E Alice sentiu um calor subir pelo seu corpo, uma sensação sem explicações. É claro que ele se preocupava, da onde ela havia tirado a idéia de que seria o contrário?

Ele desligou o telefone dizendo que mais tarde ligaria de novo. Ela concordou e sorriu ao tomar mais um gole de suco.

Definitivamente aquele primeiro dia da sua nova vida estava sendo melhor do que ela imaginava.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O começo do medo.

Enquanto voltava para casa, após mais uma noite de bebedeira, Alice percebeu que se sentia arrependida do que havia acabado de fazer. Essa não era a primeira vez que essa situação ocorria, nas últimas semanas foram muitas às vezes em que ela demorou alguns minutos a mais para chegar em casa.

Mas das outras vezes havia sido diferente, a sensação de mistério, e até mesmo de êxtase, encobriam a verdade que ela tanto queria esconder.
Agora era diferente, em vez de se sentir desejada, ela se sentia suja, usada, como se tudo aquilo tivesse sido a coisa mais errada do mundo.

Ao sentir uma lágrima escorrer no seu rosto, o movimento foi involuntário, socou o volante do seu carro, na tentativa de fazer com que a raiva que ela sentia de si mesma pudesse ser passada pra ele. Porque ela tinha concordado com aquilo? As desculpas antes usadas para encobrir a verdade já não faziam mais sentido.

Alice era uma menina querendo se tornar mulher, não era nem um nem outro, era uma mistura perfeita das duas. Tinha a mania de mentir sua idade, não para se sentir mais nova, mas porque gostava de joguinhos de mistérios e porque idade nunca interessou para ela. A tentação, a vontade e até mesmo o tesão, estão acima de coisas mesquinhas como idade. Ela não pode ser medida por aniversários já feitos, mas pelo tamanho do coração e da mente, ela já havia conhecido muitos velhos mais novos do que os próprios filhos e vice e versa.

Esse seu novo amigo, por exemplo, numericamente era mais novo do que qualquer outro que ela já tivesse tido, mas física e mentalmente ele era sem sombra de duvidas muito mais experiente do que todos os outros juntos.

Mas pensar nisso agora não era mais engraçado, o cabelo raspadinho já não mais a fazia rir, o jeito dele dizer seu nome já não a excitava mais. Ela sabia que havia algo de errado mesmo antes de tudo começar. Mas a tentação foi maior, muita coisa já havia ocorrido nesse meio tempo e ela estava realmente a fim de dar o próximo passo.

Mas não deu. Algo havia acontecido no caminho até a casa dele que a fez mudar de idéia. A vontade que antes ela tinha de estar com ele, não mais existia.

Enquanto voltava para casa o tesão ainda latente tomava conta dela, ela queria mais do que apenas uma noite de prazer, queria poder deitar nos seus ombros e dormir, sem ter que apenas o deixar em casa e voltar sozinha para a sua.

A vontade ainda existia, mas agora a insegurança era maior.