quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Fria e escondida

Alice não era uma garota normal, não sonhava com casinha de cerquinhas brancas, casamento e coisas parecidas. Pra ela a verdadeira felicidade seria alcançada com liberdade financeira e sucesso profissional. Seus sonhos eram mais ambiciosos do que encostar a barriga no fogão e fazer uma família feliz. Ela sonhava com o mundo. Em vê-lo, conhecê-lo e desvendá-lo.

E talvez por não saber desses detalhes em sua vida é que muitos homens passavam despercebidos e tantos outros abismados por ela ser uma mulher sem expectativas sentimentais.

Não que ela não gostasse de um bom romance, longe disso. Mas ela apenas os via de uma maneira diferente. Gostar de um cara não era tão importante e nem tão simples. Para ela havia muito mais em jogo do que confiança e amor.

Alice precisava de alguém que a entendesse e que desfrutasse dos mesmos objetivos de vida que ela. Mas os homens de hoje em dia preferem as bobinhas e bonitinhas que acreditam num mísero ‘eu te amo’. E ela não era assim.

Ela não acreditava em contos de fadas, príncipes encantados e bruxas más (apesar de já ter conhecido várias em sua vida). Não conseguia tecer sentimentos, remoer mágoas ou morrer de ciúmes.

Alice era realmente uma garota diferente, e talvez por essa diferença muitos homens deixassem de entrar na sua vida e fazer parte de sua história. Muitos sabiam de seus defeitos e de sua mania de escrever sobre todos os seus casos.

E isso apenas os afastava mais.

Mas ela não reclamava, um pouco de sossego nunca é demais. Sua vida era razoavelmente boa. Tinha uma família ótima, amigos melhores ainda. Morava num apê pequeno, mas que era seu maior tesouro. Não tinha do que reclamar, a vida até então tinha sido muito gentil com ela.

Mas pela primeira vez ela sentia que poderia enfim trazer algo ou alguém novo para esse seu universo. Até então tudo havia ocorrido perfeitamente bem, tirando é claro a crise de identidade que lhe tinha tirado o sono alguns dias atrás.

Ele era diferente de todos os outros. Pela primeira vez ela conhecera alguém que não queria andar de mãos dadas e gritar juras de amor aos quatro cantos do mundo.

Ele queria ela escondida. Em finais de festas, em becos escuros, em horários malucos, em carros alheios, em madrugadas sem fim. Queria por um segundo e não pelo resto da vida. Exatamente como ela também sempre quis.

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